O “Daido Moriyama: como eu faço fotos” (publicado em 2025 pela Editora Olhares, SP), é fruto de imersões do autor (Takeshi Nakamoto)e do fotógrafo (Daido Moriyama) pelas ruas de Tóquio e estradas japonesas. A obra materializa o conselho do icônico fotógrafo: fotografar é, antes de tudo, uma questão de sair e andar.
Moriyama iniciou sua trajetória na década de 1960, lançando
seu primeiro livro em 1968: Nippon Gekijo Shashincho (Japão,
um Teatro Fotográfico). Sua marca registrada é a estética "áspera,
embaçada e fora de foco", alinhada à sua filosofia de que fotógrafos devem
deixar de lado conceitos rígidos para "usar todos os sentidos e, se
possível, de forma indiscriminada" (p. 25). Defensor de câmeras compactas
e digitais simples, ele acredita que o equipamento não deve ser um obstáculo; a
rapidez é vital para capturar o "instante efêmero", priorizando o
instinto e o desejo sobre a perfeição técnica.
O fotógrafo reafirma sua assinatura visual por meio do uso
do grão (are), do borrão (bure) e do fora de foco (boke),
configurando a estética are-bure-boke. Essa abordagem desafia a
fotografia como registro fiel da realidade: para Moriyama, o borrão transmite a
velocidade e o caos da vida urbana de forma muito mais honesta que uma imagem
nítida.
As fotos presentes no livro, como já disse, resultam de
andanças por Shinjuku, em Tóquio. Moriyama define-se como um "cão
vadio" (alusão à sua célebre foto, Stray Dog, de 1971), percorrendo as
ruas sem destino. Ele vê a cidade como um laboratório infinito de memórias e
desejos, onde o fotógrafo atua como um caçador de fragmentos.
Uma das principais críticas de Moriyama na obra se volta
contra a fotografia meramente estética. Ele busca o "sujo", o mundano
e o cotidiano, propondo que a fotografia deve confrontar o mundo em vez de
apenas decorá-lo, transformando o ordinário em algo inquietante.
Nakamoto conduz o diálogo revelando que, para Moriyama, o
processo não termina no clique. A narrativa ganha vida na edição e no
agrupamento das imagens em livros. Para ele, a quantidade gera qualidade:
fotografar exaustivamente é o caminho para encontrar a "verdade" do
momento.
“Daido Moriyama: como eu faço fotos” é uma obra essencial
para quem busca desaprender regras acadêmicas. A lição central é que fotografar
é um ato de existência: não se fotografa apenas com os olhos, mas com desejo, corpo
inteiro e com a própria história de vida.
Dez conselhos curtinhos de Moriyama a quem se inicia na
arte
- Um
olhar atento é fundamental, mas o desejo é primordial.
- Interaja
com as pessoas e com a rua; evite fotos apenas abertas e genéricas.
- Saia
à rua com a intenção clara: "vou fazer fotos".
- Fotografe
o que observa usando todos os sentidos, indiscriminadamente.
- Esteja
ciente de que a luz na rua sempre se apresentará de uma forma específica.
- Mantenha
uma atenção detalhada e obcecada.
- Faça
muitas fotos de qualquer atividade comum.
- Refine
seu olhar dedicando atenção total ao que fotografa.
- Capture
o que caracteriza o espírito ou a atmosfera do lugar.
- Estruturas
emblemáticas e monumentais costumam resultar em fotos desinteressantes.
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