Fotografia de telefone celular é fotografia?

O grande fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que nos deixou recentemente, conquistou um lugar singular na história da fotografia mundial. Seus livros — frutos de longas jornadas por diversos continentes — revelam tanto a complexidade da vida humana quanto os desafios ecológicos que moldam o planeta. Em Gênesis, após percorrer mais de trinta países, Salgado buscou “lugares remotos, inabitados e intocados — ou onde as comunidades ainda mantinham uma relação primordial com a natureza”. Procurava, em suas palavras, a pureza possível, “o que havia de mais protegido”.

Mesmo vivendo a transição para a era digital, Salgado nunca demonstrou simpatia pelas câmeras dos celulares. Para ele, a fotografia feita por smartphone seria menos um registro artístico e mais uma forma rápida de comunicação visual. A fotografia verdadeira, na sua concepção, seria antes de tudo “a memória da sociedade”.

Com todo respeito ao mestre, ouso discordar. Não há diferença técnica essencial entre as imagens produzidas por smartphones modernos e as feitas por câmeras compactas de gerações anteriores. Ambas compartilham limitações e virtudes; e, na maioria dos casos, seria difícil distinguir uma imagem da outra. Com um celular, também é possível registrar a memória coletiva com intencionalidade, cuidado e profundidade — especialmente com os modelos atuais, cada vez mais avançados.

Além disso, as limitações dos smartphones estão rapidamente se dissolvendo. Android e iOS já incorporam sensores e algoritmos que rivalizam com equipamentos profissionais, e essa distância continua diminuindo. Soma-se a isso a portabilidade e a discrição: o celular está sempre à mão, pronto para capturar o instante sem o aparato pesado e, às vezes, intrusivo das grandes câmeras. No fim, o que importa é o olhar — e não o tamanho do equipamento.

No fim, toda fotografia — seja feita por celular ou por uma câmera de grande formato — é apenas um gesto humano diante do mundo. Não é o dispositivo que confere sentido à imagem, mas a consciência que a produz. Somos nós que, ao enquadrar um fragmento da realidade, transformamos matéria em memória, luz em entendimento. A técnica evolui, os aparelhos mudam, mas o essencial permanece: a fotografia é uma forma de conhecer o mundo e, ao mesmo tempo, de conhecer a nós mesmos. E enquanto houver alguém disposto a olhar com profundidade, qualquer ferramenta será suficiente para iluminar o real.

A seguir, apresento algumas fotografias realizadas com um Samsung Galaxy S24, utilizando filtro preto e branco.





 


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