Foto: Divulgação/Sebastião Salgado
Muita gente acredita que, ao comprar uma boa câmera, começará imediatamente a fazer fotos incríveis. O passo seguinte costuma ser investir em cursos — presenciais, online, ministrados por fotógrafos renomados — e gastar uma boa quantia nisso. Eu mesmo fiz isso. Mas, com o tempo, percebi que esses cursos ensinam basicamente regras: enquadramento, iluminação, velocidade… e só. Claro que, ao segui-las, suas fotos melhoram. Mas o chamado “olhar fotográfico” — aquele olhar artístico que encontramos em Sebastião Salgado, Walter Firmo, Araquém Alcântara e tantos outros — vai muito além. Ele está muito distante de se reduzir à técnica. É resultado de múltiplas experiências. É uma construção ontológica.
O que isso quer dizer?
Significa, antes de tudo, que esse olhar é complexo. Quando Salgado fazia uma fotografia, ela carregava sua visão de mundo — seu modo de compreender a vida, a existência humana e as conexões que sustentam o planeta. Seu olhar expressava um humanismo profundo, colocando o ser humano no centro da vida, onde quer que ela se manifeste.
Na célebre foto Serra Pelada, por exemplo, vemos milhares de homens subindo e descendo uma enorme cratera, como formigas agitadas antes da chuva. É um recorte de drama humano que evoca os tempos primitivos da Torre de Babel: seres frágeis, movidos pela ganância, distantes de Deus e das leis da civilização. O enquadramento, ao ignorar o horizonte, concentra o olhar nessas criaturas, tornando o drama ainda mais intenso.
O iniciante em fotografia costuma pensar que basta ter um bom equipamento para ser um grande fotógrafo. Mas desenvolver o olhar é outra história. E esse processo, longe de ser cansativo, pode ser uma das experiências mais prazerosas.
Quem se cansa de contemplar obras de arte em museus ou galerias? Quem se entedia ao analisar fotos de mestres? Quem dispensa uma boa conversa ou palestra sobre arte e história da arte?
A formação do olhar fotográfico é, portanto, um processo formativo — como qualquer outro: envolve o estudo da realidade concreta, mediações e elaboração de sínteses. Cada nova experiência, cada reflexão, cada imagem observada com atenção contribui para refinar o olhar.
Em resumo: nossos grandes mestres não nasceram com esse olhar. Eles o construíram, passo a passo. E, nesse caminho, a autocrítica é essencial. Seja seu próprio crítico. Analise suas fotos com rigor. Procure sempre melhorar. Exija de si mesmo a melhor fotografia que puder fazer.
Gostou do texto? Deixe seu comentário, inscreve-se, curte e compartilhe com um amigo que também ama fotografia. Essa é uma forma simples de apoiar o blog e continuar essa conversa sobre o olhar e a arte de ver.
Comentários
Postar um comentário