Entre a Filantropia e a Ditadura: fotografia de uma escola pública



Há edifícios que são mais do que tijolo e argamassa; são verdadeiras cápsulas do tempo que abrigam narrativas díspares e, por vezes, improváveis. Há muito tempo eu queria registrar a fachada da Escola Municipal Albert Barth, na Avenida Oswaldo Cruz, no Flamengo, Rio de Janeiro. Este prédio emblemático guarda duas histórias de naturezas tão opostas que sua coexistência parece um paradoxo arquitetônico e social. A primeira é um testemunho de generosidade e visão cívica: a escola nasceu de um gesto póstumo do empresário suíço Albert Barth, e seu projeto foi assinado por Sousa Aguiar, um arquiteto respeitado que se tornou prefeito. A segunda, contudo, é de uma dramaticidade muito mais sombria. Fazia tempo que eu queria registrar fotograficamente a Escola Municipal Albert Barth, na Avenida Oswaldo Cruz, no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro. O edifício guarda duas histórias que, de tão diferentes, parecem improváveis de coexistir.

A primeira vem de um gesto generoso: o empresário suíço Albert Barth, radicado no Brasil, deixou em testamento o dinheiro para a construção da escola. O projeto ficou a cargo do arquiteto Sousa Aguiar, que além de profissional respeitado chegou a ser prefeito do antigo Distrito Federal.

A segunda é bem mais sombria. Entre 1939 e 1946, em pleno Estado Novo, o mesmo prédio abrigou o Tribunal de Exceção, criado por Getúlio Vargas para julgar opositores do regime. Foi ali que muitas vozes foram silenciadas — inclusive a do capitão Luís Carlos Prestes, condenado nas dependências da escola.

E minha foto? Nada planejada. Um clique rápido, de dentro do táxi parado no sinal. Um fragmento casual que me trouxe de volta todo esse peso histórico. Sorte de momento — e do olhar.

O acaso do clique, apressado e não planejado, de dentro de um táxi parado no sinal, trouxe-me de volta todo o peso dessa história sedimentada. O prédio da Albert Barth, hoje um farol de ensino e futuro, carrega em sua fundação a memória do Tribunal de Exceção (1939-1946), o espaço físico onde o Estado Novo de Getúlio Vargas silenciou vozes, condenou opositores e inscreveu a tragédia na paisagem urbana — ali, inclusive, foi condenado Luís Carlos Prestes. 

E é nesse paradoxo que reside a grande reflexão: O que define um espaço? A intenção nobre de sua gênese ou a sombra dos atos ali cometidos? Talvez o edifício seja, em última instância, um palimpsesto , onde a luz da educação é reescrita continuamente sobre a tinta indelével da repressão. Ele nos lembra que a memória não é um arquivo estático, mas um campo de batalha constante entre o legado da liberdade e as cicatrizes da tirania. Olhar para essa escola é reconhecer que a história não passa; ela habita e nos interpela a cada instante.Este espaço é um convite ao pensamento — comente e compartilhe. 


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Comentários

  1. #LidiaSantos
    @LidiaSantos
    Bem... respondo por aqui mesmo (a sua sugestao sobre o local da resposta eh muito trabalhosa) : o predio dessa escola sempre me pareceu soturno. Depois de saber decsua historis mais soturno me parece. E sos professores e os alunos que usam o edificio sabem dessa historia? Comecei minha carreirs de profesdora alfsbetizando criancas das ecolas publicas da cidade do Rio de Janeiro. E dai cheguei a ser professira da Universidade de Yale ( privada e carissima) e no Centro de Pos- Graduacao da Universidade (publica), ma tenho certeza de que,
    ter ensinado criancas do curso primario e publico do Rio de Janeiro talvez tenha sido a base solida que sustentou todo o resto. Obrigada por destacarxa historiaxde uma escola publics da nossa cidade. Temos que revelar essa historia e apoiar a escola publica, que quase se vem tornando a ecola dos miseraveis. E que nao pode mais ensinar a todos eles. Faz menos de um mes um dos oorteiros do meu edificio, situsdo em Copacabana, voltou com a familia por Nordeste, porque a filha mais velha do casal, nao conseguiu vsgs na edcols publica da Rocinha, onde a familia morva lo

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