Karel Kosik, o filósofo tcheco que escreveu a obra Dialética
do Concreto, critica com veemência o mundo da pseudoconcreticidade, isto é,
aquele plano da vida cotidiana e da aparência imediata que se apresenta como
realidade, mas que na verdade encobre a essência das relações sociais. De seu
ponto de vista, o desafio da reflexão crítica é atravessar a opacidade da aparência
e apreender as determinações que constituem a totalidade do real,
compreendendo-o como processo histórico e contraditório. À luz da Dialética do
Concreto, a fotografia do grande mestre da fotografia Sebastião Salgado se
apresenta como um campo privilegiado para se experimentar a tensão entre aparência
e essência, imagem e totalidade.
Como é sabido, quando Salgado fotografava, ele inscrevia os
seus objetos em grandes processos sociais, políticos e econômicos. Nas suas
imagens de Serra Pelada, por exemplo, o formigueiro de corpos humanos, suados,
exaustos e cobertos de lama revela a brutalidade da exploração capitalista que
reduz a vida à exaustão física. A fotografia neste caso é mais do que um
documento imediato, ela serve para mostrar o essencial, para as contradições
estruturais do capitalismo na periferia dos centros de acumulação. Neste ponto,
Kosik alarga a nossa compreensão sobre as fotos do mineiro Sebastião Salgado, o
que parecia ser apenas uma cena grandiosa, quase mítica, na verdade é
manifestação visível de um processo histórico que só pode ser entendido no âmbito
da totalidade social. Com as fotos de Êxodos
ou Trabalhadores ocorre o mesmo. Elas colocam diante dos nossos olhos o drama humano
na sua materialidade sensível – rostos, corpos, deslocamentos. Um drama que não
é mera contingência, as fotos nos revelam movimentos globais de migrações
forçadas, urbanização precária, destruição ambiental. A fotografia, neste
sentido, apresenta-se como um “fenômeno revelador”, expressão usada por Kosik
para indicar aquilo que permite vislumbrar a essência por trás da aparência.
A estética de Sebastião Salgado, a despeito de apresentar
composições rigorosas, contrastes dramáticos e beleza formal, não está livre do
risco de estetizar a miséria, transformando sofrimento em espetáculo visual. A
este respeito, Kosik chama atenção para o fato de a pseudoconcreticidade também
se manifestar quando a aparência, ao invés de desvelar a essência, se torna
fetiche e encobre as determinações sociais que a produzem. O desafio, nesse
caso, é evitar que a força estética da fotografia interrompa a passagem da
aparência à essência, seduzindo o olhar e neutralizando o pensamento crítico.
O ponto decisivo, portanto, está na nossa recepção. Lidas
criticamente, as imagens de Salgado não se esgotam em sua dimensão estética:
elas são convites a pensar a totalidade, a enxergar no rosto do migrante ou no
corpo fatigado do trabalhador não apenas um indivíduo, mas o nó de contradições
históricas globais. É nesse gesto interpretativo que a sua fotografia se
aproxima da dialética do concreto, na medida em que transforma a visibilidade
imediata em ponto de partida para a crítica social.
Assim, o diálogo possível entre Kosík e Salgado pode ser
compreendido como a confluência entre uma filosofia que busca desmascarar a
pseudoconcreticidade e uma prática artística que, ao registrar o mundo
sensível, oferece imagens que podem ser lidas como revelações da totalidade social.
Se Kosík fornece as categorias para compreender o movimento do imediato ao
essencial, Salgado fornece as imagens que, na sua densidade estética, tornam
visível esse mesmo movimento. Ambos, cada qual em seu campo, partilham a tarefa
crítica de expor a realidade não como superfície plana, mas como processo
histórico marcado por contradições e lutas.
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