Em minha jornada teórica, querendo entrar com muita consistência no mundo da fotografia, chegou a vez de sistematizar o texto Pequena História da Fotografia, de Walter Benjamim (1892 – 1940), da mesma forma que fiz com os anteriores. Este importante texto foi publicado pela editora Brasiliense, São Paulo, em 1987, no livro Magia e técnica, arte e política do mesmo autor.
Nesta Pequena história da fotografia, publicada pela
primeira vez em 1931, Benjamin reflete sobre a fotografia quando o meio
começava a mostrar o seu poder de transformação da arte, da percepção e da
memória. É um texto histórico, mas também é filosófico e estético.
Ele começa, metodologicamente, observando os primeiros
retratos do século XIX, obtidos com poses rígidas e longa exposição do
daguerreótipo percebe que ainda conservavam uma aura de solenidade. São imagens
com algo de insólito mas que revelam forte densidade temporal e psicológica que
a pintura era incapaz de transmitir.
Essas imagens iniciais, segundo Benjamin, guardavam algo de
insólito, como se captassem mais do que a mera aparência física: revelavam uma
densidade temporal e psicológica que a pintura já não conseguia transmitir. É
nesse ponto que surge a noção de aura, conceito central em sua obra:
trata-se de uma espécie de unicidade e presença irrepetível que a obra de arte
tradicional possuía e que a reprodução técnica tende a dissolver.
Sua caminhada busca compreender o que a fotografia inaugura
como possibilidade e o que ela dissolve em relação à tradição da arte.
Inicialmente, ele observa empiricamente os primeiros retratos que, segundo ele
mesmo, guardavam algo de insólito, como se captasse mais do que a mera aparência
física: revelavam uma densidade temporal e psicológica que a pintura não
conseguia transmitir. O ChatGPT marca ser neste momento o surgimento da noção
de aura, conceito central em sua obra: trata-se de uma espécie de unicidade e
presença irrepetível que a obra de arte tradicional possuía e que a reprodução
técnica tende a dissolver. Mas, atenção: Benjamin vê na fotografia tanto a
perda da aura quanto a abertura de novas possibilidades de experiência estética
e política.
Um destaque importante: no pensamento expresso por Benjamim nas
últimas linhas do parágrafo anterior há uma dialética que não se pode deixar
escapar: o declínio da aura não é o fim da arte, mas sua transformação. A
fotografia marca, então, a passagem de um regime estético baseado na
sacralidade e na distância para outro, voltado à proximidade, à circulação e à
potência crítica.
Ao analisar fotógrafos como David Octavius Hill e Julia
Margaret Cameron, Benjamim percebe que as imagens podem transcender o registro
mecânico, produzindo atmosferas poéticas, jogos de luz e sombra que tocam o
inconsciente do espectador. Assim, a fotografia não é apenas técnica: é também
invenção, experimentação, construção de sentido. Por outro lado, ao falar de Eugène
Atget, que fotografava ruas vazias de Paris, Benjamin identifica um
deslocamento importante: a imagem fotográfica deixa de ser retrato de pessoas
ou monumentos para se tornar um documento anônimo da vida social, um testemunho
impessoal que antecipa a fotografia documental e jornalística. Atget fotografa
como quem recolhe provas de uma cena de crime, e com isso retira a aura da
cidade e a coloca diante do olhar crítico.
A crítica benjaminiana percebe então que a fotografia rompe
com a ideia de arte como mera contemplação estética. Ao mesmo tempo em que pode
ser estetizada, ela é também instrumento político, capaz de intervir na memória
coletiva, de desnaturalizar o cotidiano e de democratizar o acesso às imagens.
A multiplicação técnica das fotografias inaugura um novo regime de visibilidade
e percepção, que mais tarde será radicalizado pelo cinema.
Em síntese, “Pequena história da fotografia” não é
apenas uma narrativa da evolução técnica do meio, mas um ensaio que
problematiza a tensão entre arte e reprodução, aura e dessacralização,
contemplação e crítica social. Benjamin, longe de saudosismo, compreende que a
perda da aura não é um empobrecimento puro e simples, mas uma abertura para
novas formas de experiência estética e política. Seu olhar se volta para a
potência emancipatória da fotografia, capaz de revelar dimensões ocultas do
real e de questionar a própria história da arte.
Em Pequena História da Fotografia (1931), Walter
Benjamin propõe uma reflexão que vai além da narrativa técnica do novo meio:
ele busca compreender sua força estética, filosófica e política. Sua análise
revela algumas teses fundamentais. Em primeiro lugar, a fotografia inaugura uma
ruptura com a tradição artística, pois já não depende da mão do artista, mas de
um aparato técnico que redefine a própria noção de obra de arte. Em segundo
lugar, surge a questão da aura: nos retratos iniciais ainda restava algo de
único e solene, mas a reprodução técnica e a difusão em massa dissolvem essa
singularidade, instaurando um regime de proximidade e circulação. Essa perda,
porém, é dialética, porque abre caminho para novas formas de recepção. Uma
terceira tese é que a fotografia revela aspectos da realidade invisíveis ao
olhar nu. Detalhes, enquadramentos e ampliações expõem o que Benjamin chama de
“inconsciente ótico”, dimensão do real que só o aparelho pode captar. Em quarto
lugar, a fotografia democratiza a experiência estética, deslocando a imagem do
espaço restrito do culto artístico para a esfera pública, onde passa a ter
função crítica e social. Por fim, Benjamin sustenta que a fotografia inaugura
uma nova função documental: nas ruas vazias de Paris registradas por Eugène
Atget, percebe-se que a imagem se transforma em testemunho histórico e
político, como se recolhesse provas de uma cena de crime.
Com isso, Benjamin mostra que a fotografia não é continuidade da pintura, mas inauguração de um regime visual moderno, marcado pela tensão entre perda e ganho: dissolve a aura tradicional, mas abre espaço para novas formas de experiência estética, crítica social e emancipação política. O que ele anteviu em 1931 tornou-se hoje um horizonte cotidiano: vivemos imersos na reprodutibilidade técnica. Mas, em meio à saturação das imagens, sua lição permanece atual — a de que cada fotografia pode ainda ser um ato de revelação crítica, uma fresta no automatismo da visão. Recuperar o olhar benjaminiano é recuperar a potência emancipatória do ver, num tempo em que enxergar já não é o mesmo que compreender.
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