Foto de autor
Anteriormente escrevi um texto questionando se fotografia de telefone celular é fotografia? Para tanto tomei como objeto de discussão o posicionamento do grande mestre Sebastião Salgado para quem foto de celular não é fotografia. Minha tese o contestava, eu acredito que a fotografia de celular é tão legítima quanto a feita com câmeras tradicionais, pois também constrói memória social e possui recursos técnicos capazes de rivalizar com os equipamentos profissionais.
Passado um tempo, depois de novas mediações, resolvi retomar
o tema querendo entender com mais profundidade a afirmação de Salgado e
querendo situa-la com mais exatidão. A primeira observação que emerge é a sua
concepção da fotografia como linguagem, isto é, como conhecimento e reflexão. A
sequência de imagens forma narrativas potentes que provocam reflexões,
mobilizam consciências. As séries que produziu tiveram força para colocar na
agenda global questões como exploração da força de trabalho, deslocamento
forçados de grandes populações, desigualdades estruturais e devastação de
grandes ambientes naturais e culturais. Neste sentido a sua fotografia tem uma
linguagem verbal universal e uma militância combatente, além de uma sintaxe cujos
elementos gramaticais são o enquadramento, luz, contraste, perspectiva e foco.
Para Salgado, a câmera fotográfica do celular somente faz
registros do instante muitas vezes de forma pouco intencional, trabalhados sem
cuidados e compromisso com o objeto fotografado, pouco importando se são
pessoas comunidades ou ecossistemas vulneráveis. Ela mais banaliza a
experiência do que promove reflexões, nas mãos de turistas mais parecem
metralhadoras. A construção de uma narrativa, em seu ponto de vista, deve supor
controle da exposição, foco, profundidade de campo, técnica e arte. Nem toda
foto que é instagramável merece o status de foto em sua acepção.
Ele também nos diz que as fotografias são testemunhos de
realidade humanas e ambientais e derivam de intensas observações, empatia e
responsabilidade social. A fotografia de celular, especialmente feita sem
intencionalidade, somente captura a superfície das coisas nem transmite
sentido, emoção e conhecimento. Neste aspecto concordo integralmente com ele. Em
nossa contemporaneidade as redes sociais incentivam a produção de imagens que
vendem estilos de vida, marcas, experiencias e hábitos de consumo. É, de fato,
a banalização da fotografia. A IA que estou usando na construção deste texto,
lembra-me ainda que a fotografia de celular promove um tipo de realidade
filtrada e consumista, na qual as experiências são “validadas” pela
estética e compartilhamentos, mais do que pelo conteúdo ou pelo momento vivido:
tudo por um clique, tudo por uma curtida. O foco é se mostrar e possuir,
reforçando a lógica de consumo na vida cotidiana.
Em conclusão, pode-se dizer que “a reflexão sobre fotografia
de celular frente à obra de Sebastião Salgado revela a complexidade de se
definir o que é “fotografia” na contemporaneidade. Embora a fotografia de
celular possa, sim, ser legítima como forma de registro e memória social, é inegável
que a sua massificação e o uso descompromissado nas redes sociais contribuem
para a banalização da imagem. Salgado nos lembra que a fotografia verdadeira é
resultado de observação atenta, empatia e responsabilidade social, atributos
que nem sempre acompanham os cliques instantâneos do celular. Assim, a
legitimidade da fotografia não depende do equipamento, mas da intenção, do
cuidado e da capacidade de transformar o instante em narrativa significativa. A
tecnologia democratiza o acesso, mas cabe ao fotógrafo — profissional ou amador
— decidir se suas imagens comunicarão profundidade, emoção e reflexão, ou se se
limitarão à superfície de um mundo filtrado e consumista” (ChatGPT).
PS. Seguindo o raciocínio de Sebastião Salgado, se a foto de celular for intencional, esteticamente bem cuidada, com responsabilidade social e resultar de algum projeto ela se torna plenamente aceitável como fotografia, ela deixou de ser banal e banalizante. Eu assino embaixo.

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