As minhas fotografias nascem do claro-escuro — não apenas como contraste visual, mas como forma de pensamento. O que nelas se revela é menos o mundo e mais o modo como o mundo se deixa ver quando a luz já começa a duvidar de si. Cada imagem parece vir de uma hesitação: o instante em que o brilho se recolhe e a sombra avança, não para esconder, mas para dar densidade ao visível.
Esforço-me para que a minha luz seja um gesto nem uniforme nem gratuito. Ela toca o objeto como quem procura a temperatura de uma memória. Às vezes
atravessa o quadro em linhas duras, cortando o espaço como se o tempo estivesse
dividido em antes e depois. Outras vezes se dissolve num cinza respirado,
deixando o olho pairar sobre texturas e superfícies que parecem guardar
histórias antigas.
Sei que a luz só existe porque há algo que a interrompe — e tento fazer dessa interrupção o coração da minha poética.
As sombras, por sua vez, não são o contrário da luz, mas sua continuação subterrânea. Elas contêm o que não foi dito, o que a claridade não quis ou não pôde nomear. Há nelas uma espécie de reserva moral: o direito de o mundo permanecer parcialmente oculto. Nos retratos, essa sombra protege o rosto, recusa o excesso de visibilidade. Nos espaços, cria uma topografia emocional, uma geografia de silêncios.
A alternância entre corpo e arquitetura, pele e parede, faz com que cada foto dialogue com a outra como variações sobre o mesmo tema: o limite. O limite entre o que aparece e o que se cala, entre o instante e a permanência.
Quero fotografar não o que a luz mostra, mas o que ela deixa
para trás.












Comentários
Postar um comentário