O campo da fotografia já conta com uma bibliografia admiravelmente rica e diversificada, que inclui nomes como Walter Benjamin, Susan Sontag, Roland Barthes, Michael Freeman e Vilém Flusser. Como todos os demais campos do conhecimento, também este permanece em construção, em ampliação constante. No meu blog Fotografando, cujo objetivo é o aprofundamento na literatura sobre fotografia, já publiquei textos sobre os três primeiros autores; hoje me detenho em Vilém Flusser e em sua obra Filosofia da Caixa Preta, na qual ele analisa criticamente o papel das imagens técnicas na cultura contemporânea.
Flusser nasceu em Praga, em 1920, e chegou ao Brasil aos vinte anos, fugindo dos horrores do nazismo. Estabeleceu-se em São Paulo, constituiu família, lecionou Filosofia da Ciência na USP durante a década de 1960. Deixou o país em 1972 e viveu na Itália, França e Alemanha, onde ganhou notoriedade como filósofo. Ainda assim, voltava sazonalmente ao Brasil, nos anos 1980, para ministrar o curso de Teoria da Comunicação na Fundação Armando Álvares Penteado. Foi nas décadas de 1970 e 1980 que escreveu seus textos mais conhecidos sobre fotografia, defendendo que ela foi a primeira “forma de imagem técnica a mudar fundamentalmente a maneira como o mundo é percebido”. Via na invenção fotográfica uma ruptura histórica comparável apenas à da escrita.
Em Filosofia da Caixa Preta, Flusser sustenta que as imagens técnicas — como a fotografia — são produtos de aparelhos programados que condicionam o gesto humano, instaurando uma nova forma de pensar e perceber o mundo. A liberdade, para ele, só seria possível a partir de uma consciência crítica e criativa dos programas que nos governam. Noutras palavras, acreditava que a realidade humana é constituída pela linguagem e pelos aparelhos técnicos que mediam a experiência, de modo que nosso modo de ser, pensar e comunicar é determinado por sistemas simbólicos — especialmente pelas linguagens que criamos e pelas máquinas que as prolongam.
Essa perspectiva revela o quanto Flusser é atravessado pela semiótica: para ele, a câmera é produtora de signos, codificando o mundo segundo programas pré-estabelecidos. É justamente nessa hiperbolização da câmera — que ganha o estatuto de sujeito filosófico — que sua tese se mostra mais provocadora e, ao mesmo tempo, mais vulnerável. A câmera deixa de ser um instrumento neutro para tornar-se um programa que determina o que pode ou não ser feito, visto, imaginado. O olhar fotográfico passa a ser condicionado pelas possibilidades do aparelho, e os algoritmos que o estruturam parecem liquidar a aparência de liberdade e criatividade.
Mas é possível, de fato, afirmar que Sebastião Salgado, Valter Firmo, Ricardo Stuckert e tantos outros se subsomem aos dispositivos e códigos de suas câmeras? A prática fotográfica mostra que o gesto humano — o olhar, o corpo, a intuição — ainda escapam ao determinismo técnico. A superação da alienação imposta pelos programas só se torna possível através do agir consciente, da criação do improvável, da subversão crítica.
Flusser, a despeito de sua genialidade, é um pragmaticista que funda o seu pensamento em uma curiosa mistura de Husserl, Heidegger, Wittgenstein, Dewey e Cassirer. Essa “sopa epistemológica”, como costumo dizer aos meus orientandos, cobra seu preço: produz teses fascinantes, porém conceitualmente frágeis. Mesmo suas intuições mais brilhantes repousam sobre um fundamento metafísico instável, um relativismo linguístico extremo, uma ambiguidade na relação homem-aparelho e uma dependência ensaística que privilegia o pensamento intuitivo e metafórico em detrimento do rigor.
Ainda assim, Filosofia da Caixa Preta permanece um texto essencial. Sua força está menos em oferecer respostas do que em formular a pergunta decisiva: até que ponto o nosso olhar ainda é realmente nosso? Flusser talvez tenha exagerado o poder da máquina justamente para nos obrigar a resistir a ela.
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