Entre a Realidade Concreta e a Imagem Militante: O Engajamento Crítico do Fotógrafo


 

Este ensaio propõe uma imersão na sociologia crítica e na filosofia da arte, investigando o abismo teórico e prático que se estabelece entre a Realidade Concreta – a base material das estruturas de exploração e injustiça – e as suas construções simbólicas, as Representações Sociais.

Meu ponto de partida foi o exame da tensão fundamental entre o determinismo estrutural (onde a estrutura econômica e ideológica parece anular a agência) e a sociologia dialética (que, através de pensadores como Bourdieu e seus conceitos de habitus e violência simbólica, reintroduz a contradição e a luta). O debate não visa apenas descrever a forma como a realidade é percebida, mas sim buscar um engajamento crítico do fotógrafo para que vá muito além do relativismo.

O objetivo final é definir o projeto ontológico, ético e político do artista — no caso presente, o fotógrafo militante — cuja missão é recusar a familiarização e a naturalização do existente. Busco ainda articular o papel da imagem como um instrumento de confronto ideológico, essencial para desvelar as estruturas de injustiça e transformar a consciência passiva do espectador em uma força de ruptura e transformação social.

A fotografia, independentemente ser colorida ou P&B, tende a mascarar a verdadeira realidade concreta da relação e das relações de produção. Um fotografo interessado em apreender a essência das coisas (essência ontológica) não romantiza ou edulcora a pobreza, as más condições do trabalho, a exploração do trabalhador etc. Quando fotografa a cores, usa-as de forma desideologizada. Ele não negligencia ou relativiza a realidade concreta que é a fonte real da dor, da exploração e da injustiça. De forma militante faz a sua fotografia se opor/denunciar o senso comum, o que o objeto fotografado significa para o grupo. Sua luta é contra a naturalização do existente. Ele luta para desmascarar ou contestar as representações sociais que escondem a realidade concreta.

Um fotografo compromissado com a desnaturalização da injustiça se engaja em um projeto que é ontológico, político e ético. Ele é um agente de ruptura/de transformação social, sua câmera é um instrumento de confronto político-ideológico. O fotografo militante se recusa a aceitar o que é familiar, o senso comum, a concepção de mundo criada ideologicamente pelos poderosos. Ele se esforça para levar o espectador a se confrontar com o objeto fotografado como estranho, inaceitável, problemático e inumano. Luta para desfazer/apagar as representações ideologizadas construídas pelas classes hegemônicas que tornaram a miséria, a favela, os campos de refugiados e expatriados pela fome e sede passiveis de serem romantizados/relativizados tal como o diretor do filme "A vida é bela" procurou fazer. Sua denúncia documental se transforma em impacto estético, político e revolucionário.  (No filme citado, o personagem principal tenta transformar o campo de concentração em que se encontra aprisionado em um autêntico parque de diversões para o seu pequeno filho).

O fotografo engajado está profundamente comprometido com a desnaturalização do mundo e a práxis transformadora, é um agente de contestação. Daí é que ontologicamente busca a essência do real para além das aparências construídas ideologicamente. Politicamente ele usa as suas imagens como instrumento de confronto contra o senso comum; eticamente visa transformar o espectador, levando-o a encarar a injustiça como estranha, inaceitável e inumana. Sebastião Salgado, a despeito da beleza épica de suas imagens, fez isto inúmeras vezes mostrando a inumanidade do trabalho no garimpo, a solidão e a tristeza nos campos de refugiados, a irresponsabilidade das queimadas nas florestas tropicais.

A estética do fotografo engajado visa superar os estados letárgicos ou alienados e conscientizar. Ela rejeita o sentimentalismo fácil e a beleza superficial, muitas vezes realçada pelo Protoshop que apaga e diminui o peso da responsabilidade social; utiliza a técnica do estranhamento. A fotografia é a própria dialética em ação. A foto é mais que um registro, é um contradiscurso.

A jornada filosófica que desvenda a essência da exploração culmina na necessária práxis dialética do agente engajado. O fosso entre a Realidade Concreta – fonte da dor e da injustiça – e a Representação Social – mecanismo de sua naturalização ideológica – exige uma estética da ruptura. A fotografia militante ascende, assim, à condição de ato ontológico e ético, transformando a câmera em um instrumento de confronto que visa fraturar o habitus da aceitação. Trata-se de uma recusa categórica à Violência Simbólica, um esforço para restaurar a concretude da exploração ao seu estatuto de escândalo inaceitável, impulsionando a consciência passiva do espectador à esfera da ação e da transformação social, onde a verdade desmascarada é o prefácio da revolução.


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