O Catete é um bairro onde o tempo parece andar em direções
opostas. Ao lado do antigo palácio presidencial, o comércio improvisado ocupa
as calçadas. O poder virou memória, e o cotidiano virou resistência.
As imagens, em preto e branco, não buscam o belo, mas o
essencial. A ausência de cor revela a ossatura da cidade: muros marcados,
corpos cansados, vitrines que resistem. O real aparece sem verniz — apenas
presença.
Aqui, a pobreza não é apenas material: são muitos os seus símbolos. O espaço público perde seu sentido de encontro e torna-se zona de passagem. O homem que carrega nas costas o cartaz “Compro ouro” é a metáfora viva dessa inversão — o corpo como veículo do mercado, não da cultura.
Minhas fotografias não querem denunciar: elas revelam. Revelam o
cotidiano sem glamour, o humano que persiste no meio do desgaste. Como lembrava
John Berger, toda imagem mostra como o mundo é habitado — e o Catete é habitado
por silêncios e gestos mínimos.
Fotografar, aqui, é um ato de lucidez: um modo de restituir
densidade ao que já foi esvaziado.
O preto e branco não é ausência de cor — é presença de consciência.








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