A minha caminhada pela literatura sobre fotografia, sempre querendo saber mais continua — agora com o livro Simulacro e Simulação, de Jean Baudrillard, publicado em 1981 pela editora Relógio d’Água, de Lisboa. O livro me interessa não apenas por sua densidade filosófica, mas porque propõe uma crítica radical à sociedade contemporânea e ao nosso modo de fotografar: uma sociedade em que a realidade parece dissolver-se em suas próprias representações. Baudrillard questiona, com ironia e rigor, se ainda é possível falar ou fotografar uma “realidade concreta” quando o mundo é inteiramente mediado por signos, imagens e modelos que já não remetem a nada fora deles mesmos.
Quem foi Baudrillard?
Nascido em Reims, em 1929, e falecido em Paris, em 2007, formou-se em Letras e
Sociologia pela Universidade de Paris e foi professor em Paris-Nanterre a
partir da década de 1960. Sua tese de doutorado, O Sistema dos Objetos
(1968), orientada pelo marxista heterodoxo Henri Lefebvre, marca o início de
sua trajetória intelectual: ele, porém, de uma sociologia inspirada em Marx e
no estruturalismo, migra gradualmente para uma reflexão sobre o consumo, os
signos e, por fim, a simulação — processo que culmina na desmaterialização
simbólica do real.
Baudrillard avança de modo errante e provocador, quase como
um beija-flor em uma manhã ensolarada de primavera, colhendo referências de
tradições teóricas distintas. Vai de Karl Marx a Roland Barthes, de Émile
Durkheim a Marcel Mauss, de Nietzsche à semiologia contemporânea, lépido e
faceiro, sem se preocupar com coerências disciplinares ou fidelidades
epistemológicas. O que o move é a vontade de compreender o funcionamento do
“sistema de signos” que rege a cultura contemporânea. A imagem, para ele, já
não representa — ela produz realidade. É nesse ponto que sua reflexão toca a
fotografia: se toda imagem é simulacro, o ato fotográfico deixa de ser uma
captura do real para tornar-se um jogo entre superfícies, entre aparências que
se referem apenas a si mesmas.
Essa liberdade metodológica, que muitos chamariam de
“narcisismo intelectual”, é, em Baudrillard, uma forma de resistência e fuga à
rigidez do pensamento acadêmico. Ele atravessa as fronteiras entre marxismo,
estruturalismo e pós-modernismo sem remorso, como quem entende que o próprio
real já perdeu suas fronteiras. Seu pensamento, frequentemente visto como
niilista, é na verdade um diagnóstico: vivemos numa era em que a simulação não
mascara a realidade — ela a substitui.
Assim, ao se aproximar de Baudrillard, o leitor interessado em fotografia é levado a um desconforto produtivo. O olhar fotográfico, que tantas
vezes se acredita capaz de revelar o mundo, é desafiado a admitir que talvez
não haja mais mundo “a revelar” — apenas camadas de signos que se repetem, se
refletem e se esvaziam. Baudrillard não destrói a imagem; ele a liberta da
ingenuidade representacional.
Hoje, diante da proliferação de imagens digitais, selfies,
filtros e inteligências artificiais que produzem rostos e paisagens
inexistentes, Baudrillard se torna ainda mais atual e também deletério. A
fotografia em sua perspectiva já não é testemunha do real, mas cúmplice da sua
fabricação. Vivemos imersos em uma hiper-realidade, uma Matrix, em que o
simulacro se confunde com a experiência sensível, e onde o fotógrafo —
profissional ou amador — deixa de ser o caçador do instante decisivo para se
tornar o artesão de um real reinventado. Nesse novo regime visual, fotografar é
simular, e talvez o mais “verdadeiro” nas imagens seja precisamente o que nelas
é invenção.
Eu, sinceramente não acredito nisto. E você: ainda
acredita que a fotografia revela o real, ou percebe que ela cria o seu próprio
mundo?
Logo abaixo há um espaço para você registrar a sua reflexão ou deixar um pequeno comentário, sem quebrar o tom crítico do texto.
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