Resumo
Esta minha postagem analisa a reflexão teórica de Mauricio
Lissovsky sobre a fotografia a partir de três obras centrais: A máquina de
esperar (2008), Pausas do destino (2014) e A fotografia e seus
duplos (2023). Argumento que o autor desenvolve uma abordagem materialista
e não essencialista da fotografia, concebida como artefato técnico e objeto
histórico cuja eficácia simbólica depende de regimes de produção, circulação e
leitura. Ao deslocar o debate da ontologia da imagem para a análise de suas
mediações temporais e institucionais, Lissovsky contribui para uma crítica da
fotografia como dispositivo de temporalização do real, marcada pela espera,
pela pausa e pela instabilidade do sentido. O artigo dialoga com referências
fundamentais dos estudos da imagem, especialmente Walter Benjamin, Vilém
Flusser e Roland Barthes, situando a originalidade do pensamento de Lissovsky
no campo da teoria crítica da cultura visual.
Esta mesma postagem é também uma homenagem que presto ao
autor: Maurício Lissovsky. Ele foi meu aluno no Ensino Básico no Colégio A.
Liessin, no Rio de Janeiro, e foi dos mais brilhantes. Desde cedo o seu gosto
pela História era mais do que evidente, mas ele também gostava de música - foi ele que me apresentou a banda A
Barca do Sol; sua musicalidade certamente foi influenciada por seu pai, Henrique. Formou-se em
História (1981) e se tornou professor da Escola de Comunicação da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedicou grande parte de sua carreira a
história visual e à teoria da imagem, com ênfase em fotografia, arquitetura,
cinema e política. Foi autor de nove livros sobre fotografia e a história da
imagem.
1 Introdução
A fotografia tem sido tradicionalmente abordada, no campo
teórico, a partir de duas perspectivas dominantes: como evidência do real ou
como objeto dotado de uma ontologia própria. Em ambos os casos, privilegia-se o
instante da captura ou da contemplação, frequentemente em detrimento das
condições históricas, técnicas e institucionais que estruturam a produção e a
circulação das imagens. A obra de Mauricio Lissovsky insere-se criticamente
nesse debate ao propor um deslocamento conceitual decisivo: a fotografia deve
ser compreendida menos como registro imediato e mais como tecnologia da espera,
cuja significação é sempre diferida.
Esta minha postagem tem como objetivo analisar de forma articulada
três livros centrais de Lissovsky — A máquina de esperar, Pausas do
destino e A fotografia e seus duplos — demonstrando como ele
constrói uma teoria materialista da fotografia fundada na temporalidade, na
mediação e na historicidade das imagens. Destaco que sua contribuição consiste
em reinscrever a fotografia no campo das práticas sociais concretas,
afastando-a tanto do fetichismo técnico quanto da sacralização estética.
2 A fotografia como tecnologia da espera
Publicado em 2008 pela editora Mauad X, Rio de Janeiro, A máquina de esperar: origem e estética da fotografia moderna propõe uma revisão crítica da narrativa clássica sobre a fotografia. Em vez de defini-la pelo instante decisivo de Cartier-Bresson, Lissovsky enfatiza o tempo que antecede e sucede o ato fotográfico. A fotografia é concebida como dispositivo técnico que organiza a espera: espera pela luz, pela exposição adequada, pelo acontecimento e, sobretudo, pelo sentido futuro da imagem (LISSOVSKY, 2008).
Essa abordagem desloca a fotografia do campo da evidência
para o da incerteza técnica. A imagem fotográfica não garante o real; ela o
condiciona por meio de um processo mediado e contingente. Nesse ponto,
Lissovsky dialoga com Vilém Flusser, para quem a fotografia resulta da operação
de um aparelho programado (FLUSSER, 1985). Contudo, enquanto Flusser enfatiza o
programa, Lissovsky destaca a temporalidade latente da imagem, compreendendo-a
como aposta histórica.
Tal concepção aproxima-se da noção benjaminiana de
legibilidade histórica, segundo a qual as imagens só se tornam inteligíveis em
determinados momentos específicos do tempo histórico (BENJAMIN, 2012). A
fotografia, assim, não congela o tempo, mas o distribui, articulando passado,
presente e futuro de modo instável.
3 Pausa, destino e interrupção do tempo histórico
Em Pausas do destino: teoria, arte e história da fotografia, publicado em 2014 pela editora Cosac Naify, Lissovsky amplia sua reflexão ao pensar a fotografia como forma de interrupção no contínuo histórico. A noção de “pausa” remete à capacidade da imagem fotográfica de suspender momentaneamente o fluxo dos acontecimentos, produzindo uma abertura interpretativa cuja inteligibilidade só se realiza retrospectivamente (LISSOVSKY, 2014).
O conceito de “destino” é tratado de forma crítica,
desprovido de qualquer conotação metafísica. O destino de uma fotografia não
está inscrito em sua origem, mas é construído por meio de práticas sociais como
o arquivamento, a circulação institucional e o esquecimento. Nesse sentido,
Lissovsky dialoga diretamente com a crítica de Walter Benjamin à concepção
linear e progressiva da história, especialmente com a ideia de imagem
dialética, que emerge do choque entre tempos heterogêneos (BENJAMIN, 2012).
A fotografia, portanto, não redime o passado nem o preserva
intacto. Ela o expõe a disputas interpretativas, revelando que a memória visual
é sempre atravessada por relações de poder e por regimes de visibilidade
historicamente situados.
4 Os duplos da fotografia e a instabilidade do sentido
Em A fotografia e seus duplos, publicado postumamente em 2023 pela editora Acaso Cultural, Lissovsky radicaliza sua crítica ao problematizar a própria identidade da fotografia enquanto objeto. O “duplo” designa tudo aquilo que acompanha a imagem: legendas, contextos de exibição, suportes materiais, arquivos e expectativas do olhar (LISSOVSKY, 2023). A fotografia deixa de ser compreendida como unidade autônoma e passa a ser entendida como objeto relacional.
Nesse ponto, o diálogo com Roland Barthes torna-se
relevante. Embora Barthes destaque a dimensão subjetiva da experiência
fotográfica, especialmente por meio das categorias de studium e punctum
(BARTHES, 1984), Lissovsky desloca a análise para os circuitos sociais e
institucionais que estabilizam ou desestabilizam o sentido das imagens. O
interesse não está na emoção individual, mas na vida social da fotografia.
A célebre indagação “o que fazem as fotografias quando não
estamos olhando para elas?” sintetiza essa perspectiva. Fora do olhar, as
imagens continuam operando: são classificadas, esquecidas, reativadas e
instrumentalizadas. Sua eficácia histórica reside justamente nessa latência.
5 Considerações finais
A análise conjunta das três obras de Mauricio Lissovsky,
tecnicamente viabilizada em curto espaço de tempo por aplicativos de IA, permite afirmar que o meu ex-aluno de
aulas de História desenvolve uma teoria materialista da fotografia, centrada na
temporalidade diferida, na mediação técnica e na historicidade das imagens. Ao
recusar tanto a ontologia essencialista quanto o empirismo ingênuo, Lissovsky
restitui a fotografia ao campo das práticas sociais concretas, onde imagens não
revelam o real, mas o reorganizam.
Sua contribuição para os estudos da imagem consiste em
deslocar o debate daquilo que a fotografia “é” para aquilo que ela “faz”
historicamente. Ao pensar a fotografia como máquina de esperar, como pausa no
tempo e como objeto atravessado por duplos, Lissovsky reafirma o estatuto
crítico da imagem na modernidade visual, compreendendo-a como dispositivo
imperfeito de temporalização do real e como campo permanente de disputa
simbólica.
Referências
BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política:
ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. São Paulo:
Brasiliense, 2012. (Obras escolhidas, v. 1).
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para
uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Hucitec, 1985.
LISSOVSKY, Mauricio. A máquina de esperar: origem e
estética da fotografia moderna. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.
LISSOVSKY, Mauricio. Pausas do destino: teoria, arte e
história da fotografia. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
LISSOVSKY, Mauricio. A fotografia e seus duplos. Rio
de Janeiro: Acaso Cultural, 2023.
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