Fotografia e Práxis do Olhar: Ontologia, Engajamento e Crítica

 



Zacarias Gama

 

Resumo
Este ensaio propõe uma interpretação ontológica e sociocrítica do ato fotográfico, ancorada na Ontologia do Ser Social de György Lukács e na sociologia de Pierre Bourdieu. Exploro o abismo entre a Realidade Concreta — base material das estruturas de exploração — e as Representações Sociais que naturalizam a injustiça. Questiono a existência de uma "fotografia marxista", argumentando que o engajamento surge não de técnicas formais, mas da intenção do fotógrafo como agente de ruptura. Analisando o "olhar fotográfico" como construção histórica e exemplos de produção fotográfica militante, concluo que a fotografia engajada opera como um pôr teleológico secundário, capaz de desvelar a essência do real além das aparências ideológicas.

Palavras-chave: Fotografia; Ontologia do ser social; Práxis fotográfica; Marxismo; Engajamento.

O Caminho do Pensamento: Do Concreto ao Abstrato

Este texto sintetiza uma imersão que rejeita convenções acadêmicas rígidas em prol de uma clareza vibrante. Não visa preencher formulários, mas iluminar o "estado da arte" da fotografia, partindo do concreto — imagens e discursos circulantes nas redes — para captar suas determinações ideológicas.

Esse percurso segue um movimento dialético: oscila entre o objeto isolado e a totalidade social. O que surge como representação caótica da realidade transforma-se, pela crítica, em unidade do múltiplo. Ao inventariar e interpretar criticamente a produção contemporânea, ofereço um quadro que quantifica imagens, mas prioriza suas sutilezas e relações de poder, convertendo percepção imediata em conhecimento engajado.

O Ato Fotográfico como Pôr Teleológico

A fotografia é vendida como registro neutro ou fetiche estético. Mas, ao perguntar "que prática social é o ato fotográfico?", deslocamo-nos da técnica para a ontologia. Para Lukács, o clique não é reação mecânica: é um pôr teleológico, onde o sujeito antecipa um fim — denúncia, documentação ou estetização — e mobiliza meios materiais.

Diferente do trabalho que altera a natureza bruta, a fotografia é um pôr teleológico secundário: incide sobre consciências e complexos simbólicos culturais. Sob o capitalismo, porém, reifica-se em mercadoria algorítmica. Sua potência crítica exige consciência dessas mediações e recusa à imagem como dado natural.

Realidade Concreta e Representação Social

Um abismo separa a Realidade Concreta (dor, suor, exploração) das Representações Sociais (véu ideológico que familiariza a injustiça). A fotografia ambígua pode desmascarar ou edulcorar essa relação. Sem intenção desnaturalizadora, câmeras com edições em Photoshop mascaram relações de produção, convertendo sofrimento em espetáculo.

O fotógrafo militante rejeita sentimentalismo e "Photoshop ideológico". Inspirado na técnica do estranhamento brechtiana, fratura o habitus bourdieusiano de aceitação passiva: o espectador confronta miséria, refugiados ou favelas como inaceitáveis, sentindo o escândalo da realidade contra a Violência Simbólica.

A Construção Ontológica do Olhar

Crer que equipamento ou enquadramento forjam grandes fotógrafos é fetichismo técnico. O "olhar" é construção ontológica: sedimento de experiências, determinações sociais e visão de mundo.

Em Sebastião Salgado, esse olhar humanista centraliza o ser humano. Na imagem de Serra Pelada (1986), a cratera sem horizonte aprisiona o espectador no drama dos garimpeiros, evocando uma "Torre de Babel" capitalista — não mero acidente estético, mas escolha construída por estudo da realidade, arte e autocrítica. O fotógrafo se forja no conflito com o real.

Marxismo e o Contexto Brasileiro: A Fotografia como Luta

Existe "fotografia marxista"? Não como estilo visual, mas como método materialista histórico-dialético aplicado à imagem. O marxismo revela contradições de classe, sem receitas de iluminação — toda fotografia marxista é crítica, mas nem toda crítica é estrutural.

No Brasil, a tradição é rica: Salgado denuncia exploração laboral e ambiental; Januário Garcia e Cláudia Andujar visibilizam lutas indígenas contra violência estrutural; modernistas do Foto Cine Clube Bandeirante, como Geraldo de Barros e Thomaz Farkas, criticam transformações urbanas. Esses autores convertem o documento em impacto político, evitando romantismo.

A Verdade como Prefácio da Revolução

Fotografar não é impune. A fotografia militante desnaturaliza injustiças e impulsiona práxis transformadora, buscando a essência real além do senso comum ideológico.

Com a câmera — até de smartphone — como instrumento ético, retira miséria do "normal" para o "insuportável". Pensar ontologicamente o ato fotográfico recusa neutralidade, reinscrevendo a imagem no conflito histórico: a verdade lensada é prefácio da revolução social.

Referências
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. São Paulo: Brasiliense, 2012.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. São Paulo: Annablume, 2011.
LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2012.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
SEKULA, Allan. "O corpo e o arquivo". Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, n. 25, 2013, p. 1-20.

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