Clóvis: O Silêncio da Forma


                                                             

Zacarias Gama


Os Clóvis ou Bate-bola de Santa Cruz, tradicionalmente vistos em movimento nas ruas da Zona Oeste — correndo, batendo, atravessando ruas e vielas — surgem aqui em outra condição: não mais no tumulto do cortejo carnavalesco, mas dentro de uma galeria nos jardins do Museu da República, Rio de Janeiro. Essa mudança de ambiente altera radicalmente a relação entre corpo, máscara e olhar. Ao serem deslocados da rua para a galeria, os Clóvis deixam de ser fluxo para se tornarem forma; deixam de ser ruído para se tornarem presença.

A minha fotografia tenta acompanhar e potencializar esse deslocamento. Os enquadramentos fechados, quase tácteis, não buscam capturar o carnaval em sua velocidade, mas revelar o que o movimento costuma ocultar: a arquitetura das máscaras, a densidade das texturas, a complexidade dos materiais. A sua lente aproxima, recorta, concentra. Cada máscara torna-se um território visual autônomo, onde pelúcia, brilho, malha e ornamento se transformam em relevo, grafismo e volume.

   

O preto e branco intensifica essa operação. Ao retirar a cor — elemento central do imaginário carnavalesco — a minha fotografia evidencia a estrutura interna das imagens: a luz que modela, a sombra que escava, o contraste que dramatiza. O que poderia ser lido como exuberância cromática torna-se, aqui, estudo de forma. A máscara, antes espetáculo, torna-se escultura; o Clóvis, antes personagem, torna-se ícone.

Fotografar esses objetos dentro de uma galeria significa também lidar com uma nova temporalidade. No cortejo de rua, o Clóvis existe no instante; na galeria, ele existe na duração. A fotografia, ao congelar esse estado intermediário — nem rua, nem vitrine; nem performance, nem repouso — cria uma terceira camada de suspensão. É nesse intervalo que o meu trabalho se instala: no silêncio que emerge quando o carnaval é retirado do barulho.

As minhas imagens visam dialogar com tradições do retrato performativo, da fotografia etnográfica e da estética do grotesco, mas sem se fixar em nenhuma delas. O que se vê é uma negociação constante entre o popular e o institucional, entre o artesanal e o monumental, entre o objeto exposto e o corpo imaginado. A máscara, mesmo imóvel, carrega a memória do gesto; a fotografia, mesmo estática, carrega a vibração do cortejo.

  

 

Este conjunto não pretende explicar os Clóvis, nem traduzi-los. Pretende, antes, criar um espaço de fricção entre olhar e presença, entre cultura e imagem, entre museu e rua. Ao serem fotografados em uma galeria do Museu da República, os Clóvis não perdem sua força — eles a transformam. E a minha fotografia ao sustentar essa transformação, revela o que há de mais profundo nessa tradição: sua capacidade de existir em múltiplos mundos, múltiplas luzes, múltiplas camadas.

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