Zacarias Gama
Ex-Professor Titular da UERJ
No contexto contemporâneo, em que imagens atravessam o
cotidiano escolar e extraclasse, pensar o ensino de Sociologia sem considerar a
centralidade da fotografia significa perder uma via privilegiada de diálogo com
as juventudes. É nesse cenário que se inscreve o livro “Usos da Fotografia
no Ensino de Sociologia”, de Cristiano das Neves Bodart, que propõe articular
teoria sociológica, sociologia da imagem e práticas pedagógicas para
transformar o ato de olhar em exercício de imaginação sociológica.
Continuando o meu propósito de trazer a público obras que
tenham a fotografia como objeto, coloco em foco o livro de Bodart,
publicado em 2023 pela Editora Café com Sociologia, direcionado a
professores de Sociologia do ensino básico. Este livro oferece orientações
teórico-metodológicas e didáticas para integrar a fotografia como recurso
pedagógico, promovendo uma percepção figuracional da realidade social e
superando abordagens tradicionais. Seu autor é doutor em Sociologia pela USP e
professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), com foco de estudo na
sociologia da imagem e no uso crítico da fotografia no ensino básico. Ele
enfatiza uma abordagem dialética entre indivíduo e sociedade, a partir de
autores como Pierre Bourdieu.
A tese central que se propõe a apresentar ao público é que o
uso orientado da fotografia, articulado a uma base teórica mínima, pode tornar
os estudantes capazes de perceber a complexidade das formações sociais que os
cercam, passando do simples olhar cotidiano para uma prática de “ver
sociológico”. Seu objeto de estudo são as práticas de uso da fotografia no
ensino de Sociologia na educação básica, tanto como recurso de leitura crítica
(fotos históricas, de livros, da mídia, álbuns familiares) quanto como produção
autoral dos próprios alunos, incluindo atividades de produção, leitura, edição,
exposição e circulação de imagens.
Metodologicamente, ele articula teoria, análise de materiais
visuais e proposição de sequências didáticas, funcionando como um livro de
intervenção pedagógica mais do que um relatório de pesquisa empírica formal. As
questões centrais que o norteiam são: como a fotografia pode mediar a
construção da imaginação sociológica, que cuidados tomar na seleção e leitura
de imagens e de que modo práticas fotográficas podem aproximar Sociologia e
culturas juvenis sem cair em abordagens meramente ilustrativas.
O enquadramento teórico de Bodart se ancora em C. W. Mills e
sua ideia de imaginação sociológica, como capacidade de relacionar experiências
pessoais e estruturas sociais; em abordagens da Sociologia da imagem e da
fotografia (como Bourdieu), que tratam a fotografia como representação social
situada, nunca neutra nem transparente; e em perspectivas de educação crítica e
engajada, que defendem metodologias ativas e dialogadas com o cotidiano dos
estudantes. O resultado é um produto híbrido, uma composição pragmática entre
teoria sociológica clássica, sociologia da imagem e pedagogia crítica,
construído de modo articulado para sustentar a ideia de um “letramento
imagético sociológico” e da imaginação sociológica como competência escolar. Os
autores que mobiliza não aparecem apenas como citação de autoridade, mas
organizam o modo como o livro pensa a fotografia: como fato social, ação
social, dispositivo de poder e mediação pedagógica. Nesse sentido, Bodart é
fiel ao princípio pragmático segundo o qual os fins justificam os meios; em
outras palavras, para provar a sua tese, se vale de autores de diferentes
correntes epistemológicas, tomando o cuidado de não colidirem de forma
evidente.
Por outro lado, o livro “Usos da Fotografia no Ensino de
Sociologia” é fortemente pragmático no plano didático: organiza propostas,
sequências de atividades, orientações operacionais de uso de fotos para
desenvolver competências analíticas nos estudantes. A preocupação central de
Bodart é o “que fazer” com imagens para produzir efeitos formativos específicos
(estranhamento, crítica da ideologia, articulação biografia/estrutura), o que
aproxima a obra de um pragmatismo pedagógico voltado a resultados concretos na
prática docente.
O livro está estruturado em três capítulos principais,
organizados em duas partes: uma mais teórica (cap. 1 e 2) e outra mais didático‑metodológica
(cap. 3), além de prefácio, considerações finais e referências. Cada capítulo
aprofunda um elo: da sociologia da fotografia à sua tradução em propostas
concretas de ensino de Sociologia.
No primeiro capítulo Bodart constrói um “aporte teórico para
uma Sociologia da fotografia”. Suas discussões consideram a fotografia e
pesquisa social, relações entre imagem e texto, representações/apropriações e a
noção de “cena” articulada à de figuração social. Seu objetivo neste capítulo é
mostrar que a fotografia é socialmente situada, que participa de processos de
representação, poder simbólico e construção de sentidos, preparando o terreno
para um uso não ingênuo das imagens em sala de aula. No capítulo seguinte,
discute como a fotografia promove uma “percepção figuracional da realidade
social”. Trabalha pontos de partida para o ensino com imagens (seleção,
problematização, relação com os conteúdos da disciplina) e alerta para cuidados
éticos, históricos e pedagógicos no uso de fotografias na escola. Por fim, no
capítulo 3, é 100% propositivo, querendo ensinar Sociologia com o uso da
fotografia, tratando a foto como artefato cultural e explorando a leitura
imagética em diferentes contextos: fotografias históricas, exótico e familiar,
práticas e organizações culturais, estrutura social, álbuns de família e
imagens de livros didáticos. Este capítulo inclui ainda uma seção de “métodos e
técnicas da Sociologia e da Fotografia: analogias pedagógicas”, em que
categorias como estranhamento, recorte do objeto, ponto de vista, composição,
foco e enquadramento são usadas para aproximar procedimentos de pesquisa
sociológica e decisões fotográficas em atividades de aula.
O livro de Bodart é um convite à experimentação didática fundamentada teoricamente, mais do que um roteiro fechado, e aponta a necessidade de continuidade em pesquisas sobre impactos dessas práticas no aprendizado. Ele também nos desafia a transcender o olhar ingênuo e cotidiano, convidando-nos a adotar uma “visão sociológica” que revela as múltiplas camadas e tensões da realidade social. A fotografia, longe de ser um mero registro estático, aparece como um espelho dinâmico das relações de poder, cultura e identidade que atravessam o tecido social. Assim, ensinar Sociologia através da fotografia não é apenas uma técnica pedagógica, mas um exercício filosófico que desperta em educadores e alunos a consciência crítica de que o mundo é um contínuo processo de construção e reconstrução, onde cada imagem carrega uma história, um contexto e um convite à reflexão profunda sobre o ser e o conviver humanos.
Essa imersão na imagem como fato social e cultural redefine o olhar e nos instiga a perceber que aprender é, em última instância, aprender a ver, questionar e ressignificar a realidade que nos cerca. Dessa forma, o livro reafirma que educação e fotografia convergem na promoção da liberdade interpretativa e do pensamento crítico, bases imprescindíveis para formar cidadãos conscientes e transformadores da sociedade. A reflexão que nos trás integra um diálogo entre a prática pedagógica e a filosofia do conhecimento, ressaltando que o olhar sociológico, assim como o olhar fotográfico, é uma ferramenta para a emancipação intelectual e social.
Texto criado com apoio da IA
Comentários
Postar um comentário