Zacarias Gama
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Resumo
Neste artigo, proponho uma interpretação ontológica do ato fotográfico à luz da Ontologia do ser social, de György Lukács. Em vez de tratar a fotografia prioritariamente como problema epistemológico — seja como representação incapaz de apreender o real, seja como vestígio privilegiado do mundo — defendo que o ato fotográfico deve ser compreendido como forma específica de práxis social. Com base na categoria lukacsiana de pôr teleológico, sustento que a fotografia realiza um pôr teleológico secundário, no qual finalidades conscientemente postas orientam a intervenção sobre meios técnico-materiais e sobre a circulação social das imagens. Argumento que, nas formações capitalistas atuais, essa prática se constitui em meio a cadeias teleológicas mais amplas, marcadas por mercantilização da cultura e plataformização da comunicação, o que intensifica processos de alienação e reificação do trabalho imagético. Nessa perspectiva, a inteligibilidade da fotografia depende de sua inserção na totalidade concreta da vida social, isto é, de sua articulação com a divisão social do trabalho, as instituições culturais e as formas históricas de mediação digital.
Palavras-chave: fotografia; ontologia do ser social; pôr teleológico; práxis; Lukács.
Introdução
A naturalidade com que se discute a fotografia, como se ocupasse um lugar neutro entre o mundo e sua imagem, encobre seu caráter de prática social historicamente determinada. O ato de fotografar raramente se reduz a escolhas técnicas isoladas ou a uma relação imediata com o real: mesmo quando apresentado como registro espontâneo, ele se ancora em convenções visuais, rotinas de trabalho e dispositivos técnicos que antecedem o gesto individual. A oposição recorrente entre fotografia como representação e fotografia como captura do real, embora relevante em debates de teoria da imagem, pouco esclarece o que efetivamente se faz ao fotografar, pois mantém a questão no plano do conhecimento, não do ser.
Partindo da Ontologia do ser social, proponho deslocar o foco da pergunta “o que a fotografia mostra?” para “que tipo de prática social se realiza ao fotografar?”. Esse deslocamento exige abandonar concepções ingênuas do gesto fotográfico, reconhecendo-o como práxis orientada por fins, ancorada em trabalho humano que transforma condições materiais (dispositivos, ambientes, fluxos de dados) e simbólicas (códigos visuais, gêneros, expectativas de recepção). O clique deixa de ser pensado como instante neutro e aparece como momento de um complexo de atividades que envolve preparação, escolha de meios, edição, circulação e apropriação social da imagem.
O ato fotográfico como pôr teleológico
Na ontologia lukacsiana, o trabalho é o modelo originário de todo pôr teleológico: é nele que a projeção de fins orienta causalmente a transformação da objetividade, produzindo nova objetividade social. Inspirado por esse modelo, o ato fotográfico pode ser compreendido como forma específica de práxis em que o sujeito antecipa finalidades — documentar um acontecimento, compor um arquivo familiar, produzir conteúdo para plataformas, elaborar um ensaio artístico — e escolhe meios técnico-materiais adequados para realizar tais fins. Essas escolhas envolvem não apenas parâmetros de câmera ou dispositivos móveis, mas também decisões sobre enquadramento, posição do corpo, uso da luz, posterior edição digital e formas de inserção da imagem em canais de circulação.
Esse caráter teleológico distingue o ato fotográfico de uma resposta causal-natural ao mundo: mesmo em situações de aparente “instantaneidade”, a operação fotográfica se apoia em hábitos incorporados, competências profissionais e expectativas sociais que estruturam o que é fotografável e como o é. A imagem, nesse sentido, não espelha o real, mas resulta de uma intervenção que reorganiza o sensível de acordo com fins postos, ainda que tais fins sejam atravessados por contradições, conflitos de interesse e limites materiais.
Pôr teleológico secundário e mediações sociais
A fotografia, contudo, não se confunde com o trabalho produtivo que transforma diretamente a natureza para fins de reprodução material imediata, núcleo do pôr teleológico originário em Lukács. Ela se situa no âmbito do pôr teleológico secundário, cujo campo privilegiado é a ação sobre outros sujeitos, a consciência social e as formas simbólicas, articulando-se a complexos culturais e comunicacionais. Fotografar implica participar de um circuito em que a finalidade não se esgota na produção da imagem, mas inclui a sua inserção em práticas institucionais, mercados e dispositivos de mediação.
Essa condição secundária torna particularmente visível a dependência de mediações objetivas: o ato fotográfico é moldado por câmeras e smartphones, softwares de edição, plataformas de compartilhamento, redações jornalísticas, museus, agências de imagem e algoritmos de recomendação. Nesses contextos, o fim subjetivamente posto pelo fotógrafo raramente coincide integralmente com o efeito social da imagem, que é reconfigurado por processos de curadoria, indexação, monetização e moderação operados por instituições e infraestruturas técnico-econômicas.
Alienação e reificação no trabalho fotográfico
Nas configurações capitalistas contemporâneas, marcadas pela centralidade da informação e pela mercantilização intensiva da cultura, o trabalho fotográfico tende a ser incorporado a cadeias de produção e circulação orientadas por fins que ultrapassam o controle dos sujeitos que fotografam. Em ambientes como redes sociais, bancos de imagens e mercados de publicidade, o ato fotográfico se subordina a métricas de visibilidade, modelos de negócios baseados em dados e contratos de propriedade intelectual que redefinem o valor da imagem como mercadoria e como ativo informacional.
A ontologia lukacsiana permite reformular o problema da alienação nesse campo: não se trata de denunciar simplesmente a “falsidade” da imagem, mas de analisar como as finalidades sociais da produção imagética se autonomizam frente aos produtores, aparecendo como exigências naturais do mercado, da audiência ou da técnica. A reificação ocorre quando o conjunto de decisões históricas que estrutura o trabalho fotográfico — desde a padronização de formatos até a lógica algorítmica de seleção — se apresenta como dado neutro, apagando o caráter teleológico e socialmente produzido dessas determinações e naturalizando ideologias de objetividade e espontaneidade da fotografia.
Totalidade concreta e inteligibilidade da fotografia
Desse ponto de vista, o ato fotográfico só se torna plenamente inteligível quando situado na totalidade concreta da sociedade, categoria central de Lukács para pensar a articulação entre práticas singulares e formas históricas de sociabilidade. Isolado, o clique parece gesto individual; inserido na divisão social do trabalho cultural e comunicacional, revela-se como momento de cadeias teleológicas em que se articulam trabalho assalariado, produção amadora, políticas de plataforma, regimes jurídicos de direitos de imagem e estratégias empresariais de monetização.
Nem toda produção de imagens envolve o mesmo grau de consciência teleológica: em contextos de automatização e padronização extrema — como disparos seriais para alimentar fluxos contínuos em redes —, o conteúdo consciente do pôr teleológico pode se reduzir. Ainda assim, essas práticas continuam a participar de complexos sociais de finalidade, contribuindo para a reprodução ou contestação de formas de vida determinadas, e é nessa inserção na totalidade que se decide seu potencial crítico ou conformista.
Considerações finais
À luz da Ontologia do ser social, a fotografia não pode ser reduzida nem a espelho do real, nem a mero discurso desligado de suas condições materiais de produção: ela é práxis histórica na qual se articulam intenção, mediação técnica, instituições e contradições sociais. Sua potência crítica depende do grau em que produtores e coletivos conseguem tomar consciência das mediações que estruturam o trabalho fotográfico e intervir nelas, tensionando as formas reificadas de organização da produção e circulação de imagens. Pensar ontologicamente a fotografia significa, por fim, recusar sua naturalização como linguagem neutra ou prática espontânea, reinscrevendo-a no conflito histórico em que se definem tanto as formas de visibilidade quanto as possibilidades de emancipação.
Referências
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Annablume, 2011.
LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social. Tradução de Carlos Nelson Coutinho et al. São Paulo: Boitempo, 2012. 2 v.
SEKULA, Allan. O corpo e o arquivo. Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, n. 25, p. 36–57, 2013.
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