Fotografia e Museu: Como o Museu Transforma uma Foto em Obra de Arte

 


Zacarias Gama

Continuo hoje o meu trabalho (ver outros estudos já publicados) de elaboração de um consistente estado da arte sobre fotografia, analisando a tese de doutorado de Paula Cristina Tacca, intitulada A fotografia contemporânea nos museus: lugares e discursos em exposições referenciais do século XXI, defendida em 2018 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Tacca investiga como a fotografia, nascida como processo técnico e reprodutível, foi finalmente legitimada dentro dos museus de arte. Ao admiti-la como 'objeto de museu', a autora questiona: como o museu transforma uma foto em uma obra de arte única? Para isso, examina como a fotografia se estabelece como objeto museológico no século XXI e de que maneira as escolhas de curadoria e expografia constroem discursos para a imagem, especialmente quando esta transita do 'papel na parede' para suportes híbridos e instalações.

A metodologia, de caráter qualitativo e analítico, estrutura-se em três eixos: pesquisa bibliográfica, estudos de caso (MASP, IMS e MoMA) e análise comparativa. O resultado é uma tese de matiz interdisciplinar que cruza a Ontologia (distante da ontologia lukacsiana) da Fotografia (Barthes, Dubois e Rouillé), a Teoria da Arte e Pós-Modernidade (Rosalind Krauss) e a Museologia Crítica.

Embora utilize autores clássicos para discutir a ontologia da imagem, ela não dispensa interlocutores contemporâneos tais como André Rouillé, Georges Didi-Huberman e Joan Fontcuberta. Seu trabalho evita o puramente teórico ao analisar instituições de peso - MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), IMS (Instituto Moreira Salles), MoMA (The Museum of Modern Art) - revelando como a iluminação e a expografia ditam a 'leitura' do público. O museu, portanto, deixa de ser um receptáculo passivo para tornar-se um agente que reconfigura a obra.

Considerações Críticas:

Esta tese é um mapeamento valioso do sistema da arte, mas apresenta uma fragilidade ao tentar conciliar filosofias da imagem que são, por natureza, excludentes. Ao construir um 'fim' (a legitimação institucional), ela pode frustrar quem busca uma compreensão da ontologia fotográfica independente das paredes museais.

Ao centralizar Dubois e Rouillé, a autora desloca o foco da 'imagem como objeto' para o 'ato' e o 'dispositivo'. Assim, a 'verdade da foto' passa a residir no uso que se faz dela. Essa opção por uma vertente pragmática entende a fotografia como um processo em constante negociação social. Tacca afasta-se de uma visão metafísica da arte para adotar uma perspectiva onde a fotografia é definida pelo que faz e pelo lugar que ocupa nas instituições culturais."

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