Fotografia Urbana e Arquitetura: A Cidade como Estrutura e Abstração Visual


Resumo: O ensaio analisa a arquitetura da UERJ como uma estrutura de forças que molda a experiência humana e a organização social. A lente busca as linhas geométricas e o concreto para revelar a rigidez e a funcionalidade que sustentam a paisagem universitária. A construção é vista sem adornos, expondo o seu esqueleto como um monumento de resistência e história.

A série de imagens que fiz do prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro toma a arquitetura moderna como matéria-prima para uma operação de deslocamento visual. Não se trata de documentar edifícios nem de descrevê-los em sua função urbana, mas de submetê-los a um processo sistemático de abstração. Através de enquadramentos extremos, frequentemente em contra-plongée, a fotografia rompe com a perspectiva habitual do observador e dissolve referências espaciais estabilizadoras, como o horizonte e a escala humana. O edifício deixa de ser um objeto reconhecível da paisagem para se tornar um conjunto de planos, ritmos e tensões formais.

Esse procedimento inscreve o trabalho em diálogo evidente com a tradição da fotografia moderna e, de modo particular, com o vocabulário visual associado às vanguardas do início do século XX. Ângulos oblíquos, geometrização rigorosa e ênfase na estrutura remetem à gramática construtivista, mas esse diálogo ocorre sem adesão ao projeto histórico que lhe deu origem. Se no construtivismo soviético a fotografia operava como instrumento pedagógico e político, orientado à construção de um novo imaginário social, aqui essa dimensão é suspensa. O que permanece é a linguagem formal, agora despojada de finalidade ideológica explícita.

A recorrência do mesmo motivo arquitetônico, explorado sob pequenas variações de ponto de vista e tratamento cromático, introduz a serialidade como método. Essa repetição não busca a síntese, mas a exaustão. Ao insistir sobre lajes, grelhas e vãos, a série revela a arquitetura como sistema repetitivo, quase automático, no qual a função se dissolve em padrão. A ausência sistemática da figura humana reforça essa leitura: o espaço aparece desabitado, indiferente ao uso, como se existisse apenas enquanto estrutura visual.

Em algumas imagens, o uso de cores não naturalistas intensifica esse afastamento do registro documental. O céu, convertido em campo cromático homogêneo, perde sua condição atmosférica e passa a funcionar como fundo abstrato, aproximando a fotografia de procedimentos gráficos e pictóricos. Essa escolha evidencia o caráter construído da imagem e desloca o trabalho do campo da representação para o da análise visual.

Mais do que propor uma atualização nostálgica das vanguardas, a série opera um gesto contemporâneo: reutiliza uma gramática moderna em um contexto marcado pela saturação de imagens e pela perda de grandes projetos utópicos. O resultado é uma fotografia que não afirma nem nega a arquitetura, mas a interroga formalmente. Ao esvaziar o edifício de sua função simbólica e social imediata, o trabalho transforma a arquitetura em problema visual, fazendo da fotografia um espaço de pensamento, mais do que de afirmação.


  
 

 

Todas as fotos são do prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ


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