Teoria da fotografia: crítica ao conceito de ato fotográfico de Philippe Dubois






Palácio do Catete (fotografia-preto-branco-contraste.jpg)


Zacarias Gama

Resumo: Este texto discute a teoria da fotografia a partir de uma crítica ao conceito de ato fotográfico, analisando seus limites e implicações na compreensão da imagem. A reflexão busca situar o papel da fotografia entre técnica, representação e interpretação.

Introdução: Além da Sofisticação Técnica na Fotografia

Muitas vezes, ao longo da minha trajetória na Faculdade de Educação da UERJ e no Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas, e agora, nas minhas andanças fotográficas pelo Catete, deparei-me com teorias que, sob o manto de uma sofisticação técnica, escondem uma gritante vacuidade existencial. Refiro-me, especificamente, ao pragmatismo de Philippe Dubois em O Ato Fotográfico e sua tentativa de fundar uma "ontologia" da fotografia sobre a carcaça de um aparelho.

A tese de Dubois — que reduz o ato fotográfico ao "índice", ao rastro físico da luz — sempre me pareceu uma "metafísica de brinquedo". O autor deslumbra-se com a mecânica do disparo como uma criança que acredita que o motor do carrinho explica o destino da viagem. Contra essa fragilidade, é preciso resgatar a robustez da práxis e a seriedade da história.

O Brinquedo do Semiólogo e a Práxis do Homem

O equívoco de Dubois não é técnico, mas de escala e profundidade. Ao reduzir a ontologia ao "aparelho fotográfico", ele promove um fetichismo da mercadoria tecnológica. O "ato" duboisiano esgota-se no funcionamento do obturador; a consequência teórica é sacrificada em nome de uma eficácia imediata: a necessidade de rotular a fotografia como "índice" para que ela circule com valor de troca nos manuais de semiótica e nas galerias de arte.

Essa ontologia do aparelho é uma forma de alienação. Ao atribuir à câmera a potência de criar a "essência" da imagem, retira-se do sujeito que fotografa a responsabilidade pela criação da realidade social. Troca-se a complexidade da práxis pelo automatismo do clique.

O Rastro e a Classe: O Embate com Pierre Bourdieu

Se olharmos para a fotografia através da lente de Pierre Bourdieu, percebemos que a "essência" de que Dubois fala é, na verdade, um mito. Em sua análise da fotografia como uma "arte média", Bourdieu demonstra que não existe um ato fotográfico no singular, mas sim práticas fotográficas moldadas pelo habitus.

O que Dubois chama de ontologia, Bourdieu desmascara como convenção social. O fotógrafo não secciona o real por uma pulsão ontológica universal, mas porque sua posição no espaço social já decidiu que aquele fragmento de realidade é digno de ser visto. Enquanto Dubois é um anatomista do dispositivo, Bourdieu é um cartógrafo das distâncias sociais.

A Superação por Lukács: A Fotografia como Trabalho e Teleologia

A verdadeira superação desse impasse reside, entretanto, na Ontologia do Ser Social de György Lukács. Para uma ontologia digna desse nome, a categoria fundante não pode ser um aparelho, mas sim o trabalho realizado pelo fotógrafo. Onde Dubois vê o dispositivo agindo, Lukács nos convida a ver o homem operando uma teleologia — uma finalidade consciente.

A fotografia não "é" um rastro por causa da física; ela se torna um instrumento de conhecimento porque o ser social a coloca a serviço de uma finalidade histórica. Fora da práxis, a fotografia carece de alma histórica; torna-se um "Frankenstein" teórico, um simulacro técnico que funciona como autêntico estelionato intelectual.

Conclusão: O Clique como Ato de Presença Política

Quando percorro as ruas do Rio de Janeiro com meu celular ou minha câmera, o ato não é a mecânica do sensor que Dubois descreve. O rastro físico, por si só, é mudo; ele é apenas matéria bruta.

A fotografia só se torna ontologia quando o sujeito que fotografa impõe ao dispositivo uma finalidade social. Meus registros não são meros "índices" de uma presença ausente; são atos de presença política e de confronto. O clique não é um fim pragmático, mas um meio para defender ou denunciar. É o rastro humano que se faz história.


Essas questões também aparecem em ensaios práticos neste blog (FotoGRafando), onde a fotografia urbana é utilizada como forma de leitura da realidade.

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