O Instante Decisivo de Cartier-Bresson: Uma Releitura Dialética



  


 






Por Zacarias Gama


Introdução

Neste trabalho, proponho uma análise do conceito de “instante decisivo”, formulado por Henri Cartier-Bresson. Inicialmente, busco esmiuçar o conceito em sua formulação original, de modo a compreendê-lo com fidelidade em respeito ao pensamento do autor. Em seguida, pretendo identificar e analisar diferentes abordagens, apropriações e interpretações do conceito no período de 2000 a 2026.

Minha hipótese é que o “instante decisivo” vem sendo progressivamente reinterpretado e, por vezes, com profundas alterações de seu sentido original para adequá-lo aos pressupostos de correntes contemporâneas que priorizam o fragmento em detrimento da totalidade. Para examinar essa hipótese, realizarei uma varredura em fontes digitais e revistas especializadas em fotografia publicadas no período delimitado.

A Estrutura do Olhar: O Percurso de CB

Na leitura da obra O Instante Decisivo (1971), observa-se que Cartier-Bresson (CB) oferece um passo-a-passo sucinto sobre o ato de fotografar enquanto aprofunda aspectos ontológicos da imagem. Ao apresentar o seu roteiro para a obtenção de uma boa fotografia, ele também define categorias fundamentais: assunto, composição e técnica. Acompanho esse percurso para demonstrar como sua exposição culmina na formulação do conceito central.

  1. O Domínio Técnico como Libertação: O primeiro passo que propõe é a manipulação da câmera. CB enfatiza que o domínio dos recursos técnicos deve atingir o ponto de torná-los uma extensão do corpo. Sem essa simbiose, o fotógrafo tende a permanecer refém do equipamento, impedido de reagir à velocidade do real.
  2. A Educação do Olhar e a Tradição Visual: Este passo exige uma formação visual ampla. Em CB esse processo nutriu-se do cinema clássico e das grandes revistas ilustradas. Mas, além filmes clássicos e grandes revistas, também recomendo a apreciação constante de obras de arte em museus e galerias; tomo como exemplo a iluminação de Rembrandt em Tempestade no Mar da Galileia (1633) para estudar composição e iluminação. A composição sugere instabilidade: o mastro inclinado conduz o olhar em diagonal, enquanto o tenebrismo intensifica a dramaticidade. Estudar essa organização formal permite ao fotógrafo perceber como a luz e a geometria revelam a essência do caos.
  3. O Clique: A Captura da Essência: Aqui, CB aborda a apreensão da essência de um processo que se desenrola. Ele sugere que o fotógrafo deve abstrair uma “estrutura profunda” do real — aquela que se oculta sob a superfície dos fenômenos. Aproximo esta formulação da dialética marxista: se a aparência fenomênica pode encobrir as determinações essenciais, o objetivo de CB e do materialismo coincidem no esforço de desvelar a essência do objeto.
  4. A Reportagem Ilustrada e a Narrativa da Totalidade: Os fatos não são eventos isolados, mas manifestações de relações humanas historicamente situadas. Cabe ao fotógrafo buscar a “expressão verdadeira do fato”, conferindo-lhe sentido de totalidade. É imperativo não manipular a realidade (adeus ao Photoshop!). O fotógrafo deve aproximar-se "na ponta dos pés", com "olhos de águia" e "mãos de veludo". Essa busca pela totalidade é exemplificada na obra de Sebastião Salgado (ex: Êxodos e Serra Pelada), que, sem pressa, capturava ângulos onde a estrutura do fato se manifesta integralmente.

O Assunto: A Lei por trás do Fato

O assunto, diz o mestre, não é uma coleção de fatos aleatórios; é a matéria central cuja apreensão depende da compreensão das leis que governam o real. Selecionar o assunto de um fato é permitir que a fotografia deixe de ser um fragmento para se tornar um registro da totalidade social. Mesmo no retrato, o que importa não é a fisionomia fiel, mas a semelhança do indivíduo com o gênero humano e seu habitat. Além disso, é preciso frisar: a identidade do fotógrafo está impressa na foto, tal como as pinceladas revelam um Portinari ou um Guignard. É bem óbvia a dialética entre fotógrafo e fotografando.

Composição: Compondo com o Olhar

Para CB, o olho humano captura o momento em que o movimento atinge seu ponto de equilíbrio. Na sua célebre fotografia Atrás da Gare Saint-Lazare (1932), o instante decisivo não é meramente o pé que não toca a água, mas o exato ponto onde todos os vetores de força se balanceiam; fisicamente, o momento em que a resultante é igual a zero.

O reconhecimento simultâneo, na fração de um segundo, do significado de um evento, bem como da organização precisa das formas que dão a esse evento a sua expressão adequada. (CARTIER-BRESSON, 1952).

A Ontologia de Bresson

Embora Cartier-Bresson não tenha hasteado a bandeira do materialismo histórico, sua compreensão da fotografia opera sob a lógica de uma ontologia dialética. Ao rejeitar o registro puramente fenomênico, ele utiliza as categorias de essência e aparência: a imagem para ele é a revelação das leis que governam o fato. O Instante Decisivo emerge, portanto, como uma síntese de múltiplas determinações: quando a forma geométrica e o conteúdo social se fundem. Essa definição é reiterada pelo ecossistema da Magnum Photos (2024), que a descreve não como um flagrante fortuito, mas como uma imposição da geometria sobre o caos. Clément Chéroux (2024) reforça essa visão como o equilíbrio perfeito entre o mundo subjetivo e o objetivo.

Entretanto, o consenso se fragmenta na contemporaneidade dita pós-moderna. Nick Sayers (2023) argumenta que a tecnologia digital deslocou a "decisão" para a mesa de edição, valorizando o "instante indecisivo". Este fotógrafo britânico representa uma ponte entre o rigor técnico-geométrico clássico e a experimentação radical do século XXI. Ele é um exemplo de como o "instante" pode ser dilatado para revelar a essência de processos climáticos e sociais de longo prazo. Gaby Wood (2022), mais jornalista que fotógrafa, é uma das figuras mais influentes do jornalismo cultural e da crítica literária contemporânea, no Reino Unido. Ela ataca a "composição infernalmente correta" por razões ideológicas, sustentando que a geometria de CB "domestica" a realidade. Wood defende uma estética mais "crua" e desequilibrada como forma de honestidade ética. Por fim, autores como Parr (2012) e Meyerowitz (2006) rompem com a sobriedade do P&B e da geometria clássica em favor do "ruído" visual e da saturação.

Parr, ex-presidente da agência Magnum, é, paradoxalmente, a "antítese" do purismo de Bresson. Para ele, o instante decisivo não é de forças físicas, mas de contradições sociais. Suas fotos procuram registrar o momento em que o ridículo humano se torna visível através de um objeto — um sorvete derretendo, uma roupa de banho desconfortável ou um prato de comida industrializada. Meyrowitz, por sua vez, transmuta-se do clique rápido para uma presença prolongada no espaço. Nos escombros das Torres Gêmeas ele documentou a remoção dos escombros admitindo a importância da essência da perda na imobilidade das ruínas. Também admite que a cor acrescenta uma camada de descrição ignorada pelo P&B; ele sugere que o instante decisivo pode ser encontrado na atmosfera luminosa, e não apenas na ação física.

Estes autores, Wood, Parr e Meyerowitz, como se pode observar, distanciam-se de CB. Enquanto ele é o fotógrafo da síntese (um esforço para capturar a unidade na diversidade), esses autores são os fotógrafos da análise fragmentada. Eles registram a superfície, a luminosidade, o ruído e o instante fortuito sem qualquer compromisso com a essência, como discípulos da fenomenologia tomam a aparência pela essência.

Wood situa-se entre os defensores do realismo cru, segundo os quais não existe uma única interpretação verdadeira. Ela e os demais deslocam-se da esfera da objetividade dialética para a subjetividade da experiência. O relativismo presente em suas ideias assume que qualquer organização formal (geometria) é uma “mentira” ou uma “higienização” imposta pelo fotógrafo. Para eles a essência está morta e não há verdade única.

Parr e Meyerowitz, por sua vez, isolam o fragmento, entendido por eles como detalhe kitsch/brega, saturação berrante, consumo grotesco. Defendem que nem tudo converge para o equilíbrio, todas as partes da foto têm o mesmo peso; cabe ao fotógrafo abdicar da função de hierarquizante do real. Estes dois fotógrafos operam no que se pode chamar de estética do banal; eles também podem ser considerados como relativistas na medida em admitem o “ruído” visual e a dispersão.

Em última análise, o "instante decisivo" de Cartier-Bresson sobrevive não como um dogma técnico superado pela era digital, mas como uma postura ética e política diante do mundo. Ao recusar a sedução do fragmento isolado e a facilidade do desequilíbrio gratuito, a proposta bressoniana convoca o fotógrafo a reassumir sua função de intérprete da totalidade social. Em um tempo marcado pela dispersão visual e pelo relativismo estético, persistir na busca pela "estrutura profunda" do real é um ato de resistência e revolução. Fotografar, sob esta ótica dialética, permanece sendo o esforço constante de organizar o caos e extrair da transitoriedade da vida a forma necessária da verdade — transformando o clique fotográfico no ponto exato onde a história e a geometria se encontram.

 

Referências

CARTIER-BRESSON, Henri. O instante decisivo. In: BACELLAR, Mario Clark (org.). Fotografia e Jornalismo. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), 1971. p. 19-26.

CHÉROUX, Clément. Henri Cartier-Bresson. Londres: Thames & Hudson, 2008

MAGNUM PHOTOS. The Photographers’ Selection 2024. 2024.

MEYEROWITZ, Joel. Después del 11-S: archivo del World Trade Center (Aftermath). Madrid: Phaidon, 2006.

PARR, Martin. Common Sense. Madrid: RM, 2012.

WOOD, Gaby. Edison's Eve: A Magical History of the Quest for Mechanical Life. New York: Alfred A. Knopf, 2002


Uma observação: a Pós-modernidade, como ideologia do capitalismo tardio, caracteriza-se pela fragmentação das metalinguagens; doutrinas políticas, religiosas, filosóficas... ; sindicatos, partidos políticos... enfim, a fragmentação social que impõe serve aos centros de acumulação de capital na medida em que enfraquece as oposições a eles. A PM é por demais conservadora. 

 

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